A Noite Sem Fim
Maryam
Como pode um homem suportar tanta dor? Engraçado que
tanta dor acaba se tornando amarga resignação, vinda da compreensão do que não podemos evitar.
Enquanto sabemos o que vai acontecer, sempre achamos que pode ser evitado, que Deus não vai permitir,
que algo vai acontecer e mudar nosso destino e tudo vai voltar pelo menos ao normal. Mas quando nada
acontece quando o prazo se esgota, ficamos esperando o desfecho final, inertes, sem ação...
E assim estava eu a assistir tamanha infâmia, sem
poder fazer nada para mudar tal destino. Onde estava Deus, que deixou tudo isto acontecer? E o pior,
em seu nome! Como poderei continuar acreditando nele, com tamanha covardia? Será ele um Deus vingador,
que nos pune, por apenas existir? Como será o meu amanhã, sem Deus, sem ela?
Estou aqui no meio desta multidão, assistindo a um
ato ignóbil e de repente, ao fitar seus olhos, minha mente se turva e lembra...
Estava eu retornado de uma longa viagem, havia ido
resolver uma herança recebida após a morte de um parente distante. Era noite, estava cansado, sujo e
esfomeado, mas não quis interromper viagem e seguia confiante que minha residência se encontrava
logo adiante. O luar clareava meu caminho, quando de repente distingui uma figura clara adiante.
Ao me aproximar, consegui visualizar uma imagem de sonho, vestida em traje de um branco diáfano,
suave no meio da parca bruma que a envolvia. Fascinado, reduzi a marcha de meu cavalo que parou em
frente a tal criatura. Era uma mulher linda, etérea, com longos cabelos pretos, um rosto oval e
branco como uma pérola e olhos verdes faiscantes como esmeraldas. Ela me olhava com espanto, como
se já me conhecesse e no mesmo instante o meu sentimento passou a ser o mesmo.
Todos os sons cessaram. Éramos apenas eu e ela. Não
conseguia respirar e ao mesmo tempo, sentia que ela também sentia o mesmo.. Era como se estivéssemos
ligados pelo mesmo sentimento e conseguíssemos sentir ao mesmo tempo as mesmas emoções... Apeei do
meu cavalo, me ajoelhei ao seus pés e ela suavemente me ergueu. Nos olhamos por um bom tempo antes
que eu conseguisse emitir qualquer som. Quando consegui falar, perguntei o que tão linda fada fazia
a noite na floresta. Ela me respondeu estar colhendo ervas para uma parturiente com dificuldades e
ao se lembrar pediu licença para voltar a aldeia onde tal mulher a esperava. Eu a levei no meu cavalo
e então minha vida realmente começou.
Seu nome era Maryam e ela tinha o conhecimento de
ervas medicinais, passado de mãe para filha durante gerações. Vinham pessoas de aldeias distantes
buscar seus medicamentos, crentes de sua eficácia, propagada de boca em boca por aquelas pessoas de
tanta fé. Sempre que eu conseguia me afastar de meus compromissos, ia com ela a floresta e ela me
contava a propriedade de cura de cada planta, como Deus era sábio ao prover a natureza com os remédios
aos males causados pelo próprio homem.
Eu estava completamente apaixonado e sentia que Maryam
era a mulher que me faria feliz por toda a vida, senão por toda a eternidade.. Mas toda a felicidade
tem um fim...
Eu era um fidalgo de grande prestígio no meu país.
Cumpria a obrigação de receber outros nobres, inclusive de outros países, como um embaixador político.
Desta vez, recebemos uma comitiva de um país distante, eu e Maryam, minha noiva, linda a comandar um
lauto banquete. Eis que a esposa de um lorde, que já estava adoentada, começou a se contorcer em dores.
Minha Maryam, acostumada que estava com as dores do povo, tomou as dores da lady enferma, acompanhou-a
seus aposentos e durante três dias velou seu leito, fazendo-a ingerir as infusões feitas com as ervas
de sua floresta tão conhecidas. Já no segundo dia, o bispo em reunião com o lorde esposo da moribunda,
me confidenciou que a morte da lady era esperada por estes dias, pois apesar do tratamento dos
melhores médicos e das orações dos bispos e padres do padres do país, verificou-se ser da vontade
de Deus que tal alma repousasse ao seu lado pela eternidade. Só que no 4o. dia a lady se levantou como
se nada tivesse acontecido, totalmente restabelecida.
Este foi o começo do fim. A comitiva começou a duvidar
da real comunicação do bispo com Deus. Este não poderia perder sua posição e ao saber que a enferma
tinha sido tratada com ervas, começou a lançar a suspeita que Maryam usava segredos de feitiçaria para
curar os doentes.
O resto é História. Mesmo com todo o meu prestígio na
corte, não se poderia admitir que uma mulher contrariasse o predito por um homem da Igreja, ainda mais
em um tempo onde tal fato era heresia e a pena para tal era a fogueira.
E aqui estava eu, assistindo aos preparativos de uma
fogueira tão grande que daria para queimar quase todo o clero. E lá estava ela, com uma feição tão
calma, como a do dia em que nos conhecemos. Fui chegando mais perto, forçando minha entrada empurrando
os sanguinários espectadores deste espetáculo tão odioso. Ao chegar o mais perto possível, ela me
olhou com o todo o amor de um universo brilhando em seu olhar e me disse: - Não chores e não fiques
triste com minha sorte meu amor. Nosso amor é eterno. Tenha a certeza que este não é o fim, mas apenas
um dos começos que viveremos juntos. Eu nunca lhe contei, mas os ensinamentos que recebi de minhas
antepassadas remontam aos tempos anteriores a Igreja e para nós sempre existiu Deus, embora não este
que a Igreja pregoa. Minha morte nesta fogueira não me é estranha, pois nosso povo a usava para
celebrar seu poder. Sim, saibam todos- gritou- sou uma bruxa e minhas cinzas se misturarão no solo
criando vida, que salvará muitas vidas, sem a ajuda de seus cardeais, bispos e padres. Porque
EU SOU DEUS!
O medo se revelou em todos os rostos, inclusive do
clero que no julgamento tanto tentou faze-la repetir tais palavras junto com seu arrependimento. E
enquanto queimava não se ouviu um lamento de dou apenas a frase gritada com toda a força de sua linda
voz: EU SOU DEUS! Até que a voz se silenciou de uma vez.
O povo atarantado e triste, começou lentamente a
voltar para suas casas. Fiquei fitando o fogo até que se extinguisse. Não consegui chorar.
Na primavera seguinte, eu já debilitado pela tristeza
que não me permitia reação, passei pelo pátio onde ardera seu corpo em chamas para me despedir e eis
que, pasmo lá avistei um canteiro de rosas selvagens nascidas entre diversas ervas com poder curativo.
Tive então a certeza que minha morte eminente não seria o fim. Eu a encontraria novamente e juntos
começaríamos uma nova vida. Fiquei ali, sentado ente aquelas rosas que eram tão minhas, sentindo
minhas forças me abandonando quando avistei a luz do luar sobre mim. E me lembrei, que naquele dia,
também era noite de lua cheia. Tive então a certeza de vê-la, no meio do jardim, me estendendo os
braços na promessa de um abraço sem fim e a ele me entreguei.
Esta é uma lembrança de uma de minhas vidas. E na
lembrança, mais que a luz do fogo, a mais brilhante era a luz da minha sempre lua nua.