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A Partida
Do alto da torre eu podia ouvir o cântico das iniciadas. Havia
magia em cada tom, em cada sílaba pronunciada. Algumas músicas podiam até
curar doenças. Outras evocavam poderes tão fortes quanto o tempo, e eram capazes
de atravessar até as portas da morte.
Eu havia crescido ouvindo aquelas músicas. Minha mãe fora
iniciada naquele templo, e desde então todos os corredores me eram familiares. O som dos
passos, o aroma doce dos incensos, a aspereza das pedras nas paredes, tudo aquilo fazia parte de
mim, e eu sabia que ia sentir muita falta de tudo.
Do alto da torre eu podia observar os campos de flores. Amarelas e brancas,
se perdiam de vista. A lenda dizia que haviam sido plantadas pelos deuses no início dos
tempos, e que ali era seu jardim. Por isso, a torre havia sido construída naquele local,
no meio do jardim. Qual melhor lugar para se aprender e desenvolver magia?
Para cá eram trazidos as crianças e os jovens considerados
estranhos pelas suas famílias. Chegavam assustados, vindo de um meio que os rejeitava.
Só porque tinham dons, só porque eram especiais. Apenas alguns poucos vinham para
estudar, sem nada ter de especial estes sempre tinham que se esforçar mais, mas quase
sempre chegavam a fazer grandes trabalhos. A ausência de poderes especiais lhes dava uma
proteção natural que os demais não tinham.
Ah, a brisa da manhã... O toque do vento sobre a pele, trazendo
aromas do distante mar... No inverno o vento invertia seu sentido e eram os aromas das montanhas
atrás da torre que chegavam.
E eu ia embora...
- Novamente perdido na torre... Não dormiu direito?
Eu conhecia bem aquela voz, que por anos e anos me perseguiu, obstinada
pela minha educação.
- Velho Ahad, ainda aqui? Não tem mais nada a fazer no mundo
dos mortos?
- Pois é, tantas tarefas e me mandaram continuar com você...
- Acho que você devia fazer uma reclamação formal - sorri.
Ahad parou ao meu lado, debruçando-se sobre a amurada da torre.
- Aqui é mesmo lindo. Por isso você sempre foge para cá,
quando há problemas.
- Funcionava, pois você não conseguia chegar aqui. Subir
pelo lado de fora da torre nunca foi seu esporte preferido.
- É verdade. Mas côo agora atravesso paredes, tudo ficou
mais fácil.
- Estou morto de inveja.
- Péssima piada...
O sol já inundava a torre com os seus raios, projetando enorme
sombra sobre os campos de flores.
- Não atrase mais sua partida - o tom de Ahad agora era grave -
precisa encontrar seu destino, e ele não está aqui.
Quando criança sonhei em encontrar uma linda jovem entre as
iniciadas. Com ela iria ser muito feliz. Mas os anos se passaram e isto não aconteceu.
E, para piorar, nenhum dos oráculos anunciava meu futuro como um dos magos da torre.
A torre branca não me aceitava ali, por algum motivo invisível
que me escapava, e que ninguém sabia explicar.
- Parta hoje mesmo. Vá para o norte, até
além das montanhas. É época de festas da magia, e você vai gostar de ver.
- Já esteve lá?
- Sim, várias vezes. É uma terra muito bela, de ótimas pessoas.
Olhei para o horizonte.
- É verdade que um dia tudo isso vai acabar?
- Sim. O mundo passa por ciclos, e uma grande época de ignorância
está para chegar. Espero que você não a veja.
- Não há nada que possamos fazer?
- Faremos muita coisa. Nossa ordem permanecerá por séculos.
Por vezes escondida, mas sobreviverá até que o mundo esteja pronto a nos aceitar de
volta.
- Será uma época triste...
- Já aconteceu antes. Eu vi.
- Não vou atrapalhar mais, preciso ir.
- Sua mãe está te aguardando no Alto Conselho.
- Eu sei, preciso buscar meu material. Minha espada e meu cordão.
- Sim, está preparado.
Olhei mais uma vez para o horizonte. As flores, brancas e amarelas,
oscilavam com o vento, como de me dessem adeus.
Rio de Janeiro, 03/02/2005 – 10:00
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