|
|
||
|
Houve uma época... A lua brilhava no céu. Eu observava as estrelas, e a lua por entre as nuvens. "Será que me lembrarei disso algum dia, em outra vida, ou outro lugar?" Eu me lembrava também da bela ruiva da estalagem. Feliz, alegre. Eu havia me empenhado em chegar naquele lugar. Foram semanas de cavalgada em meu corcel negro, Dialon. Companheiro fiel de muitas aventuras, Dialon havia se tornado um amigo inseparável. Compartilhara comigo diversos rituais à lua cheia, guardava em seu dorso documentos mágicos que continham meus diagramas secretos. Ainda posso sentir o seu pelo e a bela montaria, que eu havia aprendido a fazer com um coureiro. Eu havia andado muito procurando aquele lugar, e finalmente havia encontrado. Aquela estalagem era cheia de vida. Lá podíamos trocar experiências, compartilhar momentos de felicidade que só nós, bruxos, sabíamos entender. E era um momento de festa, pois nossa presença era esperada. Diamanne era filha de bruxos, treinada na arte dos encantamentos desde que nascera. Era uma lenda entre nós, e certamente poderia ser tomada por uma pessoa comum, não fosse a força de vida que possuía e seu olhar, tão penetrante que podia descobrir nossos segredos em um pequeno segundo. E ela havia me reconhecido desde que me olhara. Percebeu meu coração, e viu que nada havia que pudesse ir contra os princípios dos Grandes Mestres e da Deusa dos Encantamentos. Percebera que eu, mais que um aprendiz, era um amante apaixonado da arte do oculto e sobrenatural. Mas naquela época nada era mau, nada era proibido. A comunhão entre os homens e os deuses era cultuada à luz do sol e da lua, sem que ninguém impedisse nossas crenças ou práticas. E aquele lugar era famoso por sua forte religiosidade ligada à Natureza. Era encantador ver tantas pessoas, felizes simplesmente por estarem vivas, por manterem a mesma energia. E havia sido uma noite maravilhosa. A força da Luz Violeta envolvera a todos com sua força e alegria. Ah, como viver era bom... Estávamos em uma época de fartura. As plantações estavam melhores do que nunca, e a fome há muito não visitava as casas da aldeia. Alguns diziam ser sorte, outros ser força mágica das feiticeiras. Mas o importante é que cada vez mais havia felicidade e fartura. Dançamos a noite toda, e eu não podia deixar de admirar a força de vida de Diamanne. Alegre e feliz ela dançou, seus pés flutuavam sobre o assoalho. Ela por várias vezes percebeu meus olhares, mas não os evitava. Não tinha medo de mim, pois conhecia meus sentimentos, e sabia que eu compartilhava da mesma felicidade. Nesta noite de lua e estrelas, os céus cultuavam os humanos com sua glória, e nada podia dar errado. Tudo era perfeito. Eu ainda podia ouvir os hinos dos últimos beberrões, ainda dentro da estalagem, enquanto preparava-me para dormir e olhava a lua. Fechei os olhos e encontrei-me novamente com a natureza. Revi mentalmente todo os símbolos e encantamentos para comungar com a Lua e com o vento noturno. Senti a brisa suave tocando meus braços e meu pescoço. Respirei fundo o suave e frio ar noturno. Senti que uma força azulada abraçava meu corpo, sob o prateado luz do luar. Levantei as mãos para a Lua, agradecendo a Vida e o momento de felicidade. Por um momento percebi que não estava só, e olhei para a estalagem. De uma janela ela me observava. Sorri, e com um cumprimento, retribuído com um sorriso e um aceno com os olhos, encerrei minha comunhão. Deitei-me e, sob as estrelas, dormi. Rio de Janeiro, 17/08/2003 – 1:00 Continua |