MESTRE DA TORRE - HISTÓRIAS - MEUS COMENTÁRIOS - ALÉM DOS MUROS   
    O Início da Grande Noite - Parte 2

<- Parte 1

    - Senhor padre! Senhor padre!
    O Jovem, de cabeça raspada e aparentando pouca idade corria pelos corredores do castelo. Seu rosto pálido e olhos vidrados denunciavam o forte estado de fascinação que arrastava sua alma.
    Em uma sala austera, coberta de livros e papéis, um velho com aparência sinistra o recebeu. Suas vestes negras eram claras em relação à cor de seu espírito. Dissimulando sua irritação por ter sido interrompido, assumiu uma voz melosa, para aparentar uma bondade que longe passava de seu coração.
    - Por que corres, meu filho? O que tanto te apavora?.
    - Senhor padre, quatro bruxos malditos desapareceram! Foi como se virassem fumaça, ninguém viu nada!
    - Como? Tem certeza?
    - Absoluta, senhor! Quando fui levar a ração diária o guarda me contou, apavorado!
    Um brilho terrível passou pelos olhos do velho padre. Já havia sido difícil armar a ratoeira que incriminou os sacerdotes, e agora isso. E se eles tentassem reverter a situação? Não, isso não podia acontecer, não agora. Padre Thomas ansiava pela sua promoção, e não podia permitir que esse feito se realizasse.
    Há uma semana ele havia recebido uma carta do pontífice, dando-lhe os parabéns pela sua conquista, convertendo uma aldeia pagã ao catolicismo - com uma nota especial pela quantidade de bens e terrenos amealhados no decorrer do processo.
    - Irmão Arthur, temos que tomar medidas extremas.
    - O que o senhor mandar, padre!
    - Junte quantos fiéis puder, e traga-os até o pátio principal, o mais rápido possível. Preciso de todos vocês para acabar com esse mal, espalhado por Lúcifer!


    Em duas horas o pátio estava com mais de quarenta pessoas, jovens em sua maioria. Todos obstinados pela nova religião.
    - Fiéis irmãos, hoje Nosso Senhor precisa de vocês! Quatro bruxos malditos fugiram da santa morada (ele certamente achou melhor não dizer prisão), utilizando recursos que só as forças do mal possuem. Precisamos capturá-los e dar um fim a esse trabalho maligno! Aqueles que não se converterem deverão ser queimados, para que não mais espalhem seu mal!
    O padre escolhia as palavras com precisão, para dar um tom de justiça à suas ignóbeis atitudes. Sua crueldade, superada apenas pela sua ambição, em breve conquistaria simpatizantes, espalhando o terror por toda a Europa.
    O que nosso pobre Padre Thomas não esperava era que ele mesmo sofreria os efeitos de seu mal. A ambição e a ganância existiam em todos os degraus da Igreja, e a autoria da nova prática contra os bruxos foi-lhe tomada. Sem recursos para combater pessoas tão influentes, foi designado para uma outra aldeia, ainda mais afastada que a de nossa história. Porém, a viagem que empreendeu para chegar até ela nunca chegou ao seu fim.


    São Paulo, 16/10/2003 – 17:40