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O Outro lado da História <- Recomendo ler antes - Maryam Dei um beijo em sua face e a vi se espreguiçar, lentamente, sem nem sequer abrir os olhos. Sorri. - É hora de levantar, temos trabalho a fazer. - Ah... Tenho que parar com esse negócio de dormir... - Um dia você consegue. Dessa vez foi ela quem riu. Mas não demorou muito para levantar, e em pouco tempo estávamos nos preparando para sair. Do lado de fora de nossa casa havia uma carruagem bem decorada, com entalhes na madeira e detalhes em ouro. Haviam dois corcéis atrelados à Carruagem. Ansiosos, eles batiam os cascos aguardando nossa partida. E nossos animais não deixavam nada a dever aos que pertenciam aos dois cavaleiros que nos acompanhariam. Quatro fortes batedores a cavalo, com lanças e espadas cercavam nossa carruagem, cujo cocheiro, nos esperava. Arthur, nosso guia e cocheiro, tinha como principal tarefa nos levar ao nosso destino e nos trazer de volta a salvo. Conhecedor de muitos caminhos e muitas técnicas de fuga, quase sempre nos acompanhava. E o fazia com um constante sorriso, retirado apenas quando via alguma cena triste. Entramos na carruagem, e dentro já nos aguardavam dois companheiros de trabalho, ambos hindus. Sua tarefa era fazer o trabalho técnico, enquanto para nós sobrava o emocional. - Vocês estão atrasados! - Ora, Keob-Horamed... Você sabe que Arthur sempre nos deixa a tempo, não há com o que nos preocupar. - Você abusa da sorte. Tem que treinar mais disciplina. Danielle, minha amada, entrando na carruagem com um pouco de dificuldade, veio em minha defesa. - Pode deixar, vou conseguir um horário livre com o professor de disciplina para Aramis. Parcialmente satisfeito, Keob ajeitou a enorme pedra verde em seu turbante e não tocou mais no assunto. Al-Moweer, o segundo hindu ocupante da cabine não nos deu atenção. Estava concentrado em suas orações, que não deixava de recitar até que começasse o trabalho - e por vezes eu poderia jurar que ele estava fazendo durante o trabalho. Ao contrário de Keob, tinha uma enorme safira em seu turbante, o que por vezes contrastava com as demais cores ao redor. A carruagem ultrapassou os limites da cidade de Dimege e parou próxima ao pátio principal. A rua estava apinhada de gente, e logo ao descer da carruagem corremos para ocupar nosso lugar próximo à fogueira. Al-Moweer e Keob-Horamed retiravam rapidamente diversos apetrechos de suas sacolas, e em pouco tempo estavam com diversos deles montados próximos ao nosso local. Ela estava fraca, mas seu espírito era forte. Vinda de uma linhagem de pessoas ligadas à espiritualidade, desde cedo manifestou poderes que as pessoas não compreendiam. Usou durante toda a sua vida seu conhecimento - adquirido com estudo - e seus dons para o bem de sua aldeia. Porém, a sombra da ignorância atingira sua vida. - Quando isso vai acabar? - Danielle estava entristecida com o que via. - Ainda vai durar algum tempo, mas a própria intolerância dos homens dará um fim a isso. Mas até que isso aconteça ainda vamos ter muito trabalho a fazer. E foi você quem me ensinou isso. Enquanto Maryam era atada à fogueira, os dois hindus, rápidos e ágeis como serpentes ligavam diversos aparelhos que eu não compreendia ao corpo de Maryam. Ela não os via, mas sabia que não estava só. Aguardávamos ansiosamente o sinal de Al-Moweer para começarmos a trabalhar, quando vimos que no meio da multidão um ser vibrava em sintonia diferente da maioria. Era o homem que amava Maryam. Impotente e incapaz de compreender o poder que se apresentava diante dele, tanto de luz quanto de sombras, ele sofria em silêncio. Mas seu desespero chegava a nós como berros na escuridão de uma floresta. - Não podemos ajudá-lo? - Danielle estava cada vez mais preocupada - Não sabia que ia ser tão complicado. - Não, ele terá que conviver com sua decisão. Ele teve tempo suficiente para aprender com ela, e não o fez. Agora, terá que sofrer a conseqüência de suas decisões. Mas a misericórdia divina está sempre presente para todos, e quando ele pedir ajuda, haverá quem o acalme seu coração atormentado. Mesmo tentando acalmar Danielle eu não podia deixar de lembrar de muitas outras histórias como essa, que se repetiam dia a dia. - Está na hora. O aviso de Moweer não permitia que perdêssemos tempo. Em dois segundos nos tornamos visíveis a Maryam, que sorriu ao nos ver. Em seu pensamento, ela nos agradeceu por estarmos ali. - Aramis, meu mestre, que saudade! - Estamos aqui para protegê-la. Uma nova etapa vai começar para você. - Não se preocupe. Você não vai mais ficar só. - Danielle passava a mão nos cabelos de Maryam, que estava deslumbrada com a visão. Ela não sentiu as chamas em momento algum. Aguardei o sinal dos hindus para pegá-la em meus braços. - Não se preocupe, descanse. Você está segura. Ela sorriu para mim antes de perder os sentidos e dormir um longo e profundo sono. Seu corpo material queimava nas chamas, servindo de deleite à turba insana, que clamava pela morte de uma protetora, que eles não souberam reconhecer. Voltamos para a carruagem, onde acomodei Maryam em uma cama improvisada. Estranhos seres tentaram se aproximar, clamando por vingança, dizendo-se injustiçados. Mas nossos batedores afastaram esses seres para longe, e alçamos vôo rumo ao infinito, de volta para casa. Maryam recuperou-se rapidamente, devido à sua lucidez espiritual, e em pouco tempo lhe foi concedido uma visita à Terra. Seu único desejo era rever seu grande amor, e ela pôde realizá-lo. Ajudamos em seu processo de materialização e, por uma noite, sob a luz da lua, ela o teve mais uma vez em seus braços. E a história nunca se acabou... Rio de Janeiro, 29/09/2003 – 22:08 |