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Tintin
Tivemos sorte desde que chegamos naquela cidade. Todos os dias haviam sido
bons, e o acampamento foi montado sem problemas.
Quando chovia era ruim, pois todos ficavam de mau humor.
Embora ficássemos nas carroças, protegidas da chuva, quase não
podíamos sair. Os homens, obrigados a trabalhar sob o mau tempo, resmungavam dia e
noite, praguejando contra a natureza.
Mas nada disso havia acontecido, e era dia de espetáculo.
O povo começava a chegar, atraído pela música e pelas gargalhadas.
As mulheres só se apresentariam depois, quando já houvesse bastante gente,
pois apesar de dançarem por dinheiro - e nisso éramos muito boas - os maridos
ciganos eram muito ciumentos e não permitiam várias exibições no
mesmo dia.
Eu estava junto às outras meninas, olhando as pessoas chegando.
Estavam tão próximas, e faziam parte de um mundo tão distante... Mas era
um mundo que aprendíamos a desprezar. Nos era ensinado a não confiar nos fidalgos
e outros nobres, pois - ironia do destino - igualmente em nós eles não confiavam.
Mas eu era muito nova para perceber isso.
Contava então doze anos. Sempre achei que não tinha tempo
suficiente para me divertir. Por isso sempre que podia fugia das minhas obrigações
para me divertir à minha maneira.
Meu nome é Catherin. Não me lembro muito de meus pais,
pois eu fui criada por quase todo o acampamento. Não que não tivesse pais de verdade.
Eu os tinha sim, mas acredito que eles não ligavam muito para mim.Ao menos, não me
lembro de grandes momentos de afetividade. Apenas me lembro de minha mãe chamando para
cumprir meus afazeres: que eu não disfarçava odiar, principalmente porque me
chamava pelo apelido: Tintin.
Quando pequena, não me incomodava com esse nome, mas quando
cresci tentei abandona-lo, pois fazia com que eu parecesse sempre uma criança. E eu
já tinha doze!
Embora com o corpo desenvolvido, eu não era alta para minha idade.
Meus cabelos, ruivos e longos contrastavam com a minha pele muito alva. Sempre procurei cuidar
da aparência, exceto nos dias de mau humor, quando eu era capaz de surpreender a mais
terrível das bruxas.
Apenas uma coisa me incomodava realmente no acampamento - a velha Simeone.
Cruzei o olhar com o dela. Ao longe, sentada em seu banquinho, ela me observava. O brilho gelado
de seus olhos me gelava o sangue, pois tinha certeza que ela era capaz de ver minha alma
através do tempo e do espaço. Muitas pessoas a procuravam para feitiços
de amor e poder, e a cada um ela dava uma palavra de advertência. Mas comigo era diferente.
Parecia que ela sabia algo terrível a meu respeito, e isso sempre me assustou. Muitas vezes
ela ensaiou me dizer alguma coisa e desistiu, e isso só serviu para aumentar ainda mais a
minha apreensão.
Olhei em volta e vi um belo rapaz me observando. Pela sua aparência
pude prever que deveria ser o filho de um comerciante. Nem rico, nem pobre, mas me agradou.
Sorri para ele - e esse foi o meu primeiro erro.
(continua)
Rio de Janeiro, 17/02/2004 – 18:48
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