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William

Padre William olhava para fora, pela janela de sua carruagem. O caminho era difícil, como todos
os outros. Era demorado como todos os outros.
O noviço à sua frente não fazia idéia de seus pensamentos. Ninguém fazia. Estava sozinho.
Lembrava dos caminhos que o levaram até ali. Lembrou-se do tempo em que era apenas William Montblanc, filho de
costureiros, costureiro como seus pais. Simples e sonhador como todos os outros. Que amava como todos os outros.
Apaixonara-se cedo, como de costume na época. Porém, enquanto ainda fazia planos de
felicidade uma fatal doença tirara o maior tesouro de sua vida: Marie Fontaine. Nunca houve palavras para
tanta dor. E, no meio de tanto sofrimento, jurou vingar-se do único ser que lhe pareceu culpado no momento: Deus.
Entrou para a vida católica e não foi difícil galgar os degraus da igreja. Em seis anos já
era padre em uma cidade próxima à sua. Nunca mais havia visto seus parentes, nem nada que lembrasse Marie.
Nunca rezou de verdade, pois não confiava em Deus. Na verdade o odiava, e havia decidido
trabalhar contra o que ele representava com todas as suas forças.
Assim, em poucos anos de ofício já colecionava riquezas, obtidas de forma escusa e sombria.
A prática obrigatória da confissão fornecia-lhe escravos aos seus desejos. Sim, ele sabia demais. Aproveitara-se
mais de uma vez da credulidade de pessoas simples, e também não lhe era incomum o consórcio com pessoas poderosas que
lhe deviam favores. Sua lista de delitos não era pequena.
Pensava no motivo daquela viagem: inveja. Havia uma jovem naquela aldeia que lembrava muito
sua querida e jamais esquecida Marie. Ele há algum tempo cobiçava Joanne. A queria para si, a qualquer custo. No
entanto, o coração da jovem não sintonizava com os seus interesses. Ela nada desconfiava. Aproveitando-se da
confiança dos pais da jovem em sua pessoa, tudo ele fazia parta envolvê-la, sem resultado. Para piorar a situação
ela havia anunciado seu noivado com o filho de um rico proprietário local, aliás, este antigo parceiro de falcatruas.
Padre William jamais poderia permitir isso.
Mas tudo tem um limite, e aquele homem estava cansado. Enquanto segurava um pequeno
crucifixo em suas mãos, lembrava-se de seus sonhos de juventude. Sua alma estava em conflito. Não era sua própria
história parecida com aquela? Os mesmos sonhos?
E aquela história teria mesmo um fim.
Foi tudo tão rápido... Cavaleiros. Vários cavaleiros. A carruagem parou. Arrombaram
a porta e puxaram os dois para fora. Gritos. Brados de vingança. O noviço pedia pela vida de Padre William.
Dois deles o seguravam. Uma arma. Mais gritos. Um disparo. Pássaros voando. Silêncio. Um choro baixinho...
Sentado sobre uma lápide ele observava seu próprio enterro. Não havia muita gente. Alguns
revoltados. A maioria indiferente ou aliviada.
Aquilo era estranho. Os anjos não apareceram. Nem demônios, tampouco. Tinha certeza de que
estava morto, pois havia visto seu próprio corpo na floresta. Vira o noviço ser morto também, mas ele não estava
ali como ele. Sumira. Ficou sentado aguardando seu corpo ser encontrado, o que não demorou muito. Viu o corpo
ser levado e cuidado. Naquele momento via seu enterro.
Anoiteceu e todos foram embora. Ninguém veio falar com ele. Padre William continuava
só, como sempre.
Um perfume, um aroma diferente. William, sentado em um canto em sua antiga igreja, levantou-se.
Há quanto tempo estava ali? Vira o novo substituto, que ficou apenas seis meses e fugiu. Às vezes ele era capaz de ver
William e ficava muito assustado. Alguns meses depois e um representante da igreja fechou aquele lugar. Agora estava
cheio de pó e aranhas. Ainda ninguém havia aparecido. Devia pedir ajuda a Deus? Vencido pelo cansaço e pela solidão,
resolveu tentar.
Lembrou-se do tempo de juventude, antes da morte de Marie. Tempo em que ele acreditava.
Tempo em que ele tinha fé. Rezou todas as orações que havia decorado desde a infância, e todas as outras que havia
aprendido depois. Perdeu a conta de quantas vezes repetiu. No final, já nem era oração, era uma conversa. Ele pedia
ajuda. Já não culpava mais Deus pela sua desdita. Analisando tudo o que ele tinha visto e aprendido, percebia que
Deus sempre esteve presente em sua vida, mesmo quando ele não quis.
Então ele viu que não estava só. Uma linda mulher estava de pé ao seu lado. Ao vê-la,
agarrou-se a ela e chorou copiosamente. Com a voz embargada pelas lágrimas, mal pôde murmurar: Marie!
Uma hora havia se passado. Marie, agora sentada, acariciava os cabelos quase grisalhos de William.
- Querido Will, senti tanto sua falta...
- Ah, Marie... Fiquei tão revoltado, tanta coisa eu fiz...
- Não fale nisso agora. É hora de recomeçar. Você está recebendo a chance de corrigir os
seus erros. Para isso precisa vir comigo e começar o caminho de volta.
- Eu aceito, desde que fique contigo. Já faz tanto tempo que nem sei...
- Will, você está nessa igreja abandonada há seis anos. Muitas vezes vim te buscar, mas sua
revolta e tristeza não permitiam que você me visse. Aguardei esse momento por muito tempo.
- Vamos para onde? Vou ver Deus? Não tenho muita coisa boa a contar.
- Não vamos para a nossa casa. Preparei um lugar muito bonito para nós, mas caberá a você
merecê-lo. Precisa trabalhar para consertar todos os seus erros.
- Desejo começar já.
- Então vamos. Amigos nos esperam.
Doze anos depois nasciam duas crianças no Brasil Imperial. Primos, casaram-se tão logo a
idade lhes permitiu, e viveram uma vida dedicada ao próximo e a idéias libertárias. Morreram durante um ataque
do exército do Rei, numa cidadezinha no interior do país. Assim, voltaram para casa, para trilhar um novo caminho.
Sempre juntos, daquele momento em diante, em seu verdadeiro lar.
Rio de Janeiro, 26/07/2005, 18:16
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